O assunto da segunda-feira foi a troca de guarda no comando da Ferrari. Sai Maurizio Arrivabene e assume Mattia Binotto em seu lugar. Uma situação que já se falava desde meados da temporada passada, quando uma crise começou a surgir entre a gestão esportiva e a gestão técnica.

Mas qual é o impacto desta mudança para a Ferrari?

Arrivabene veio para a Ferrari no final de 2014 após vários anos trabalhando na Phillip Morris, trazido por Sergio Marchionne. Fórmula 1 não era um assunto desconhecido para ele: já havia sido um dos responsáveis pela gestão dos patrocínios da Marlboro na própria Ferrari e participava junto à administração da categoria desde 2010 como representante dos patrocinadores.

Quando assumiu a liderança da Ferrari, Marchionne veio com o intuito de mexer nas estruturas da equipe, que vinha em uma situação um tanto prejudicada após os anos Domenicali e tinha um “provisório” à frente, com Marco Matiacci. O objetivo era tornar a Ferrari mais ágil e sem depender de “estrelas”.

Além disso, como fez na Fiat, valorizou a “prata da casa” e tornou a gestão mais horizontal, procurando aumentar responsabilidades, criar novas abordagens e diminuir os espaços entre as áreas para melhorar o desenvolvimento dos produtos. Nesta esteira, nomes como Simone Resta e Mattia Binotto começaram a ter um protagonismo no programa Fórmula 1, e a filosofia “Ferrari feita na Itália por italianos” foi tomando forma.

Para a temporada de 2015, notou-se uma mudança na abordagem

a equipe estava mais fechada à imprensa e o estilo de gestão era mais “linha dura”. Ao longo da temporada, foi se notando que o novo chefe era dado a declarações, digamos, “firmes” e a broncas públicas na equipe.

O objetivo era mobilizar a todos a para recuperar o terreno perdido na era híbrida, que simplesmente “varreu a concorrência” no primeiro ano do novo regulamento. Além da própria cobrança vinda de Marchionne, que queria resultados rápidos e acabar com a “seca” de títulos.

Rumo às mudanças

2015 foi um ano ainda de transição, com Vettel obtendo 3 vitórias e a Ferrari ficando em 3º no campeonato. 2016 esperava-se mais. E não vieram os resultados. Um ano de seca de vitórias e um longínquo 4º lugar.

Com a introdução do novo regulamento em 2017, a equipe teve seu “pulo do gato”, com abordagem bem agressiva de desenvolvimento. E permitiu à Vettel a lutar pelo título junto à Mercedes até o fim do ano, mas mais uma vez ficando atrás. Mas os resultados melhoraram.

Entretanto, as fissuras já apareciam. O estilo de Arrivabene já não era tão bem visto na equipe, com muita gente achando que o “respeito pelo medo e confrontação” não funcionava como antes.  E isso não passou despercebido pela gestão da Ferrari.

Marchionne, um homem de ação, já o colocava em observação. E profissionais como Resta e Binotto, responsáveis pela parte técnica, expunham que esta situação prejudicava o desenvolvimento, uma vez que posições mais agressivas poderiam ser duramente questionadas, como era feito interna e externamente.

2018 veio e a Ferrari se mostrou o carro a ser batido.

Mas o clima não era de leveza. Uma prova foi a saída de Resta para a Sauber no início do ano. Foi uma solução encontrada para que a concorrência não fizesse como em outras oportunidades e pegasse homens-chave.

Aparentemente, Marchionne já estava decidido a fazer a mudança na comando. Binotto já vinha sendo deslocado para mais funções, como, por exemplo, ter mais contato com a FIA e a FOM além das questões técnicas. Ele foi uma das cabeças que tocaram as negociações sobre as novas regras de motor e que culminaram uma ligeira postergação na implantação.

A macarronada desanda…

Com a morte de Marchionne em julho, a Ferrari balançou. Louis Camilleri, ex-CEO da Phillip Morris foi indicado para o comando e um novo nome começou a apareceu: John Elkann, CEO da holding que cuida dos interesses da família Agnelli e neto de Gianni Agnelli (simplesmente o homem que transformou a Fiat em um gigante mundial automobilismo). A esta altura, Elkann era o Presidente do Conselho da Ferrari.

Em tese, Arrivabene estava “prestigiado”, pois quem entrava o conhecia muito bem. Mas neste momento, a equipe se perdeu. A Mercedes deu um banho em estratégias, o sistema de bateria dupla, que era um dos diferenciais, era questionado e as evoluções planejadas para o carro simplesmente não funcionavam. Sebastian Vettel, que então lutava pelo título e havia trucidado Hamilton na Inglaterra. Porém foi se perdendo psicologicamente e cada vez cometendo erros de pilotagem e avaliação.

A esta altura, a guerra interna era aberta, com Arrivabene chegando ao cumulo de dizer que não tinha gerência sobre a área técnica. Como um chefe de equipe não controlava seus técnicos? A separação entre box e o pit wall era cada vez maior…

Binotto e Arrivabenne: uma queda de braço de longo tempo (fonte: grandprix247.com)

Com isso, os rumores de que haveria uma mudança foram se avolumando. Abertamente se noticiou que o contrato de Arrivabene que terminava ao fim do ano estava sob avaliação e que estava sendo cogitado para assumir um posto na Juventus (controlada pela família Agnelli). Em paralelo, se ouvia que Binotto era assediado pela Renault e Mercedes…

Mudando tudo para continuar igual

Lembram-se do John Elkann? Pois é. Ele foi sendo preparado ao longo dos anos para assumir postos de relevância nos negócios da família Agnelli. E tinha Sergio Marchionne como um tutor e modelo a ser seguido. Ao assumir o posto de Presidente do Conselho, uma das preocupações era não fazer o barco virar.

A escolha de Louis Camilleri para CEO não foi nenhuma “bomba”: ele foi por anos o numero 1 da Phillip Morris e já era membro do conselho da empresa. Portanto, não se tratava de um aventureiro.

Outra, era garantir que as diretrizes estabelecidas fossem cumpridas. E uma das provas foi a contratação de Charles Leclerc para o lugar de Kimi Raikkonen em 2019. Esta escolha também mostrou que a posição de Arrivabene não era tão segura, já que ele era um dos defensores da permanência do finlandês. E pode ter sido um bom indicativo que o caminho traçado anteriormente seria mantido.

Como Presidente do Conselho, Elkann agiu em conjunto com Camileri e lançou a troca, oficializada ontem e comunicada no “diário oficial” da família, o Gazetta dello Sport.

Arrivabene pode não ter sido um líder do tipo simpático ou carismático. Mas teve méritos em reforçar a equipe e recoloca-la em condições de disputar vitórias e títulos. Mas faltou dar o próximo passo. Quando a maré é ruim, qualquer coisa contra acaba prejudicando. Se a Ferrari fosse vencedora, tenham certeza muita coisa seria relevada.

Agora é Binotto!

A escolha por Binotto reforça a política da “prata da casa”. O engenheiro fez toda sua carreira dentro da Ferrari (está na empresa desde 1995 e sempre com a Fórmula 1. Inclusive foi engenheiro de Rubens Barrichello), conhece bem as estruturas internas e representa a tentativa de unir ainda mais o time. Quem o conhece, diz que é uma pessoa cordata, embora também saiba cobrar. E também estuda muito em busca soluções originais, incentivando novas ideias da equipe, sem medo do erro. É uma abordagem mais alinhada à Marchionne.

Por esta abordagem, muitos dizem que seria uma ótima situação para Leclerc. Conforme dito, é uma aposta da equipe e se encaixa muito na filosofia da equipe. Sem contar que serviria como uma espécie de “pressão” para Vettel, cujo desempenho foi bem questionado ao longo de 2018.

Embora fosse alinhado a Arrivabene e diante desta “valorização” de Leclerc, não deixa boa notícia para Sebastian Vettel, já que poderia focar somente em suas funções como piloto. Justamente por se preocupar em outros aspectos, o alemão acabou tendo atuações abaixo do seu padrão.

Não é que o piloto tenha a função de somente dirigir. É importantíssimo que ele entenda os vários aspectos envolvidos. Afinal, uma corrida não se vence somente dentro da pista. Mas Vettel foi afetado diretamente pela confusão do lado de fora.

Também indica que o modelo horizontal deverá fazer parte da equipe cada vez mais. As soluções cada vez mais buscadas em equipe, sem histerias e estrelismos. Algo talvez mais parecido com a gestão de Todt e Brawn.

2019 começa sob o signo da mudança.

Tudo indica que teremos uma Ferrari mais pacifica, técnica e ousada. Vettel e Leclerc aguardam com esperança o novo SF72H (provável designação do carro deste ano), a ser apresentado em 15 de fevereiro.  Se a Ferrari for realmente pacificada e a boa base for mantida, poderemos sim ter a Mercedes desafiada de fato.

Eis a (nada fácil) tarefa de Binotto. Buon Auguri!

Binotto: o novo capo (fonte:grandprix247.com)
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