Umas das equipes mais comentadas no paddock de 2018 foi a Force India. Não apenas pela ação na pista, mas pela imensa trama financeira que circundou a grave crise na equipe. Até que um grupo de investimento liderado por Lawrence Stroll comprou a empresa e a rebatizou de Racing Point Force India . Os pontos foram zerados no GP da Bélgica e a nova equipe assumiu o restante do campeonato.

Resumo

O VJM11, carro usado pela Force India/Racing Point em 2018. (Fonte: carmag.co.za)
  • Carro: Force India VJM11
  • Motor: Mercedes M09 EQ Power 1.6 L
  • Projetista: Andrew Green
  • Pilotos: Sergio Pérez (México) e Esteban Ocon (França)
  • Chefe de equipe: Bob Fernley (Force India)/Otmar Szafnauer (Racing Point)
  • Posição no campeonato: 7º lugar (52 pontos)

Um difícil primeiro semestre

A Force India veio de um forte quarto lugar em 2017, se estabelecendo na posição de “melhor do resto”. Marcou 187 pontos,  104 a mais do que a quinta colocada, a Williams. E, assim como a Williams, a equipe indiana sofreria uma bruta queda de rendimento em 2018.

Nos testes de inverno em Barcelona, nada mais do que um desempenho apagado. Ocon fez o 14º tempo dos testes. Enquanto que Perez, o 20º. A equipe, como empresa, estava muito mal. Pela falta de recursos, não foi possível se aproveitar tanto dos testes para melhorar o carro. Dessa forma, a Force India foi para o GP da Austrália com o mesmo carro que levou para Barcelona. “Nós não começamos a temporada com o carro que queríamos porque não tínhamos os fundos para produzir as peças”, explicou Otmar Szaufnauer.

Ambos os pilotos não chegaram ao Q3 na Austrália. Eles marcariam apenas um ponto nas três primeiras corridas do ano. Em 2017, conseguiram 17 pontos nesse período. Porém, foi em Baku, a quarta corrida, o ponto mais alto da temporada para a Force India. Sergio Pérez estava na hora e no lugar certos para se aproveitar da confusão das últimas voltas. Confusão que se deu com um Safety Car, um erro de Vettel e um trágico pneu furado de Bottas. Assim, o mexicano conseguiu o único pódio de uma equipe fora das três grandes na temporada.

Pérez no pódio em Baku. (Crédito: Dan Istitene/Fonte:readmotorsport.com)

Mesmo com essa conquista, o restante dessa primeira parte de temporada foi difícil. As atualizações que foram desenvolvidas não podiam ser aplicadas em razão da grave crise financeira. Sergio Pérez comentou que esse foi um período muito difícil, no qual ele tinha que lidar com a situação do time e ainda pilotar. Mas uma solução estava a caminho.

A saga da crise

O co-fundador da Force India, o milionário indiano Vijay Mallya, enfrentou grandes problemas com a justiça nos últimos tempos. Ele possuía 42,5% da empresa, ao lado do também indiano Subrata Roy (com 42,5%) e o holandês Michel Mol (15%). Mallya era acusado de fraude, e estava se defendendo de um processo de extradição do Reino Unido para a Índia. Assim, no final de maio de 2018, ele deixou a diretoria da equipe.

A Force India estava extremamente endividada. Foi reportado que o valor ultrapassava os 200 milhões de reais. A Mercedes era sua principal credora (cerca de 15 milhões de dólares), em contratos relativos a peças e motores. A BWT, companhia austríaca de água e patrocinadora master da equipe, também alegou que deveria receber dívidas. Além disso, a Force India também devia 4 milhões de dólares para Sergio Pérez, em relação aos patrocínios do piloto. Até que em uma ação iniciada pela empresa de Pérez, a Force India entrou em administração, no dia 28 de junho. Era o sábado do GP da Hungria.

Vijay Mallya, o polêmico e enrolado ex proprietário da Force India. (Crédito: Agência Sutton)

O processo de administração se dá quando é nomeado um administrador para a empresa, por parte das cortes de um país. Esse administrador tem como objetivo trabalhar no sentido de defender os interesses dos credores da empresa. Nesse caso, era o de evitar a falência da Force India e preparar o terreno para sua venda. O time operou normalmente nas pistas durante esse período. Na época, Otmar Szafnauer chegou a comentar que havia esperança de que essa situação se resolvesse logo, e reconheceu a importância do fator dinheiro na Fórmula 1.

O ponto de virada: Spa

Até que, em agosto, foi anunciado que um consórcio, liderado por Lawrence Stroll, (pai do então piloto da Williams) havia comprado a Force India. Em um acordo com a FIA, foi negociada uma nova entrada no campeonato mundial. A antiga Force India foi excluída do campeonato e seus pontos até então foram zerados. Assim, um novo nome foi criado: Racing Point Force India, com zero pontos no campeonato. Tudo foi praticamente mantido, das cores do carro aos mais de 400 funcionários. Szafnauer explicou o motivo de manter Force India no nome. “O Racing Point é o nome da empresa no Reino Unido que detém os ativos. Essa é a única razão para o Racing Point estar lá. Mas o nome do chassi continua sendo Force India, e acho que do ponto de vista dos fãs, esse é o coisa certa.”

O GP da Bélgica foi o primeiro da “nova equipe”. E foi um começo espetacular, ainda mais levando em conta todo o desgastante processo financeiro. Em um treino chuvoso, Ocon e Pérez roubaram um pouco das atenções da disputa Hamilton x Vettel. Eles fizeram o terceiro e o quarto tempos, e na corrida, conseguiram um quarto e sexto lugar. De quebra, proporcionaram uma das mais belas imagens do ano de 2018, quando atacaram os dois campeões na reta da pista de Spa.

Ocon e Pérez vão para cima de Hamilton e Vettel. (Foto: Force India)

O restante da temporada para a Racing Point foi de recuperação. Os dois pilotos conseguiram marcar 52 pontos após a reestruturação, colocando a equipe na sétima colocação. Contudo, a relação entre Ocon e Pérez continuou tensa. Nessa conta, inclua algumas polêmicas por troca de posição, como no GP da Rússia. Pérez pediu que ordenassem a Ocon o deixasse passar, para que ele pudesse atacar Kevin Magnussen. Por fim, o mexicano não teve sucesso, e eles acabaram trocando de posição novamente. Foi um estratégia criticada pelo francês.

A disputa interna em números

A dupla Ocon e Pérez garantiu uma das disputas internas mais interessantes de 2018. Pérez marcou 62 pontos no ano e terminou o campeonato no oitavo lugar. Alguns de seus destaques foram o pódio em Baku, o quinto lugar na Bélgica e quatro sétimos lugares. Já Ocon marcou 49 pontos e terminou no décimo segundo lugar. Ele chegou em sexto em quatro corridas e uma vez em sétimo.

No quesito melhor posição final em corridas, houve equilíbrio: 11 x 10 para Pérez. A saber, ambos terminaram apenas 13 corridas. Dessas 13, Ocon vence por 9 x 4. O francês sofreu seis abandonos durante a temporada, enquanto que o mexicano não completou somente duas vezes.

Já em qualificação, Ocon leva a melhor por uma larga vantagem. O placar é de 16 x 6. Dessa forma, o francês foi, em média, 0,115 s mais rápido que o companheiro. Da mesma forma que Pérez tem o melhor resultado em corrida da equipe no ano, Ocon tem o melhor em qualificação. Justamente o terceiro lugar na Bélgica, atrás apenas da primeira fila composta por Hamilton e Vettel. Abaixo, um comparativo de pontos entre os dois ao longo da temporada. Pérez aparece em cinza e Ocon em preto.

Arte do site formula1.markwessel.com

Os dois, mesmo que cultivando suas diferenças, formaram uma forte dupla. Pérez é um piloto já experiente e rodado, mas que dificilmente conseguirá evoluir muito mais na carreira. Já Ocon é um piloto jovem, talentoso e rápido. Infelizmente, ele perde a vaga para Lance Stroll esse ano e fica de fora do grid. Porém, ele ainda é ligado à Mercedes, e é um dos cotados para substituir Valtteri Bottas na equipe.

E para 2019?

A recuperação financeira da Force India em 2018 foi impressionante. Uma equipe que já mudou de nome cinco vezes foi salva e pôde continuar no grid. Agora que o problema muito sério de falta de recursos foi resolvido, o time pode trazer evoluções para o carro com mais regularidade. E como a estrutura da antiga Force India é basicamente a mesma, não é difícil de imaginar que eles possam brigar pela liderança do pelotão intermediário. Pérez conseguiu ser o melhor do resto por dois anos, mas agora eles terão um desafio bem maior. Como a última temporada já deixou claro, essa região se mostra altamente competitiva entre si. Especialmente se considerarmos o intenso trabalho que tem sido feito na Renault, por exemplo. A Racing Point revelará a aparência do seu carro de 2019 amanhã, dia 13 de fevereiro.

Sobre a dupla de pilotos, uma grande decepção para muitos fãs. Na avaliação deles, o aspecto da Fórmula 1 como negócio acabou por tirar do grid um dos seus talentos em ascensão. Realmente, foi uma decisão empresarial do novo dono da equipe, que é pai do piloto escolhido para substituir Ocon. Não seria sábio cortar Pérez, que apesar de tudo, foi essencial na resolução da crise. Porém, Stroll não se mostrou necessariamente um piloto horrível.Talvez agora, de posse de um carro com mais performance do que a Williams, possa mostrar algo. Já que está lá, que se dê uma chance para ele. E Ocon provavelmente não ficara de castigo por muito tempo. Claro que é uma possibilidade. Mas com o trabalho de desenvolvimento que ele fará e o esforço especial de Toto Wolff pela sua carreira, a chance de vê-lo no grid logo é grande.

Ocon e seu substituto na Racing Point, Stroll. (Fonte: BBC/ Reuters)
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