A semana começou quente para a Liberty Media, dona da Fórmula 1. Após trombetear nas últimas semanas um aumento do público nas pistas e na audiência televisiva e nas redes sociais (até sendo tratado aqui), os americanos vem sofrendo uma saraivada de ataques…

Vendo a atuação da promotora até o momento, cabe fazer um paralelo muito louco, mas pertinente. A Fórmula 1 corre o sério risco de ser uma nova União Soviética.

Certamente você agora deve achar que este escriba derreteu os poucos neurônios sãos que ainda possuía. Mas vou colocar meu ponto de vista para traçar a teoria…

Perestroika e Glasnost

A União Soviética tinha mais de 60 anos de existência e era a grande estrela do sistema socialista, polarizando o poder político, econômico e militar com os Estados Unidos no período pós-Segunda Guerra. Mas embora fosse uma tremenda estrutura, o país vinha se perdendo diante da burocracia e da mentalidade do comando.

No início dos anos 80, o país estava paralisado e teve 3 mandatários em um espaço de pouco mais de 2 anos e meio. Em uma tentativa de mudança, o comando do Partido Comunista escolheu um “garoto” (54 anos) para comandar o Partido e o sistema. Seu nome era Mihkail Gorbachev.

Mihkail Gorbachev: o último líder soviético. O coveiro revolucionário (fonte: Escola Britânica)

Não era necessariamente um novato na estrutura de poder. Mas comungava da crença que o sistema deveria ser reformado para permanecer. Nesta linha, iniciou uma série de ações para tornar a União Soviética mais moderna e transparente. Daí surgiram slogans como Glasnost (transparência) e Perestroika (reconstrução).

Inicialmente, as ações foram bem aceitas e tomando impulso, enquanto Gorbachev consolidava seu poder. Mas recuperar o atraso de vários anos em pouco tempo era doloroso, bem como a briga com os defensores da antiga ordem.

Aos poucos, as brigas internas e a perda de controle fizeram a União Soviética se enfraquecer mais ainda. Isso culminou na queda do Muro de Berlim e do bloco socialista em 1989 e na dissolução do país em 1991 (decretado em um lacônico discurso de Gorbachev um dia após o Natal).

Na tentativa de reformar e salvar o sistema dele mesmo, Gorbachev acabou por ser o coveiro.

E o que tem a Fórmula 1 com isso?

Ora pois. Se formos ver a atuação da Liberty até o momento, o caminho acaba sendo o mesmo. Os americanos entraram com o intuito de mudar a cara da categoria, tornando-a mais acessível e equilibrada técnica e economicamente.

Embora tenham méritos em ter estabelecido a Fórmula 1 no mapa das redes sociais e se posicionar entre uma das principais entre as ligas esportivas, os americanos tem sofrido para mudar a estrutura da categoria, atrair novos parceiros (os atuais ainda são da gestão de Bernie Ecclestone) e pistas e chegar a um acordo com as equipes para mudanças técnicas e econômicas antes do término do Acordo de Concórdia em 2020.

Um ataque em curso. E uma cara conhecida por trás…

E não bastando, um movimento orquestrado foi feito esta semana. O site “johnwallstreet.com” publicou uma matéria falando que os americanos, diante das dificuldades encontradas, estavam buscando alternativas para reduzir sua exposição, o que passaria de busca de novos parceiros até a venda da categoria.

Uma nova carga surgiu: 16 dos 21 promotores de GPs, reunidos sob o guarda-chuva da FOPA (Formula One Promoters Association), lançaram um documento na noite da última segunda-feira, simplesmente desancando a Liberty Media e expondo alguns de seus medos, tais como:

  • Redução da transmissão pela TV aberta, reduzindo a cobertura de público e diminuindo a possibilidade do telespectador eventual;
  • Falta de iniciativas pela Fórmula 1 e a falta de contato com os promotores para implementação
  • Novas pistas não devem ser incluídas em detrimento das atuais;

O promotor do GP da Inglaterra, Stuart Pringle, em entrevista ao Daily Mail, foi mais enfático:

“Todos estão dispersos. As ideias da Liberty são desconjuntadas. Temos sido complacentes e tranquilos até agora. Mas temos grandes preocupações sobre a saúde futura do esporte em relação a quem o comanda agora”

A Liberty Media optou por não se pronunciar. Uma reunião será feita nesta terça-feira em Londres para tratar vários assuntos entre as partes.

Alguns dizem que Bernie Ecclestone estaria por trás desta estratégia para poder ter a Fórmula 1 de volta a um preço muito mais baixo do que vendeu. Estaria o “anãozinho tenebroso” (palavras do “Barão” Fittipaldi) interessado em voltar as ter as rédeas da categoria?

Ele está para voltar? (fonte:grandprix247.com)

Mickey Mouse em Moscou

O que fica aparente ao público é que a Liberty Media tem tido mais problemas do que pensava para impor seu estilo. A mexida que está sendo proposta (e necessária até certo ponto) é um verdadeiro cavalo-de-pau na categoria, embora não tenha ficado claro o que exatamente quer ser feito. Chase Carey, o “gringo revolucionário”, deve estar pensando muito com seu frondoso bigode o que fazer.

Além disso, ainda há a dita “ameaça” da eletrificação com o crescimento da Formula-E e o banimento dos carros à combustão da Europa, o que deixa a Fórmula 1 em uma tremenda encruzilhada para manter sua relevância como categoria de ponta tecnológica.

Neste sentido, o quadro da Fórmula 1 se assemelha – e muito – ao da União Soviética dos 80: sabe que tem que mudar para sobreviver e se manter grande. Mas é justamente a maneira como faz a mudança que pode leva-la à ruína. Por isso, camaradas da Fórmula 1: uni-vos!

Camaradas, uni-vos! (fonte:formula1.com)
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