O batismo alvinegro

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Essa crônica é um relato da primeira vez que meu tio e eu levamos meu primo Pedro, hoje com dois anos de idade, a um jogo de futebol. É aconselhável para qualquer amante de futebol que já viveu ou sonhe em viver um momento como esse. Boa leitura!

Era um fim de tarde como outro qualquer, terça-feira, dia 15 de março de 2017. O pequeno Pedro saiu da creche e ao entrar no carro estranhou a presença da mãe e do primo, trajando camisas alvinegras. Chegando em casa pontualmente às 18h, nem reparou na demora para o veículo enfim parar.

Para a sua sorte, adormeceu durante todo o monótono trânsito da Linha Amarela no horário de rush. Quando acordou, não sabia se era realidade ou sonho, tamanho a surrealidade do que via. Seus olhos pequenos tentavam acompanhar e com o dedinho indicador apontava, falando timidamente: “Olha, mamãe, olha! É Fogo! Fogo!”.

Enquanto Pedro despertava, milhares de torcedores caminhavam rumo ao Estádio Nilton Santos, o Engenhão. Eram camisas alvinegras de diferentes épocas, tons de preto e branco, histórias. Mas todas tinham algo em comum: a estrela solitária ao lado esquerdo do peito. O jogo da noite? Botafogo e Estudiantes, a estreia do Glorioso na Copa Libertadores daquela temporada.

Ao entrar no estádio, o campo, aquele mar verde, chamou mais atenção do pequeno. Não foram os torcedores gritando, as bandeiras tremulando e nem os coirmãos de time o chamando, mas sim os jogadores aquecendo, tocando a bola, chutando para o gol. Pedro queria queimar etapas e entrar lá, chutar, fazer gols, correr… mas essa vontade ficará para outro passeio.

(Na costas do pai, entrando num estádio de futebol pela primeira vez. Foto: William Farias)

O jogo começou e as mãozinhas acompanhavam outra música que não o famoso “Parabéns Pra Você”. Era o hino do Botafogo, entoado por mais de 30 mil vozes apaixonadas. Maior êxtase que esse veio aos 34 minutos do primeiro tempo, quando Roger – numa meia bicicleta – abriu o placar. O estádio veio a baixo. Pedro não sabia se gritava, pulava, ou batia palmas. Mas era perceptível que o moleque estava sentindo-se em casa.

Na segunda etapa, após os copos d’água no intervalo, nosso pequeno herói parecia estar numa disputa intensa contra um adversário ingrato, o sono. Dentro de campo, o Botafogo enfrentava como podia o seu oponente, que crescera no jogo. Aos 17 minutos, de falta, Otero empatou para o Estudiantes e Pedrinho pode ouvir algo que não tinha ouvido naquela noite: o silêncio.

(Foi dramático, mas teve final feliz. Pedrinho saiu vencedor no Nilton Santos. Foto: William Farias)

Perplexo, os torcedores levavam as mãos à cabeça, xingavam, gritavam, faziam gestos. Pedro, sem entender, olhava do pai para o primo e nenhum dos dois esboçava nenhuma reação diferente dos demais. Restou ao técnico Jair Ventura salvar à noite. Chamou Sassá e Pimpão e pediu que o primeiro fosse para a esquerda e o segundo para a direita. E no primeiro lance após a mudança, um lançamento de uma ponta a outra culminou no gol da vitória.

“Foste herói em cada jogo, Botafogo, por isso que tu é e hás de ser nosso imenso prazer!”

Explosão! Estranhos se abraçando, apontando para o céu, agradecendo aos deuses, beijando suas camisas. Pedro voltara a pular, tinha vencido de vez o sono. Assim como seu time, em campo, ao fim do apito, conquistava os primeiros três pontos na fase de grupos da maior competição do continente. Com requintes de drama e final feliz, saiu vencedor do seu primeiro jogo no estádio.

Talvez daqui a 20 anos, olhando as fotos marcadas pelo tempo, Pedro sentirá saudades das lembranças daquela noite. E lembrará, pelo relato dos presentes naquela data, de como foi o seu batismo alvinegro. E que ninguém escolhe ser botafoguense, mas o Botafogo é que escolhe quem merece levar a frente seu escudo, suas cores e tradição

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