Gospel & Brasil: Movimento religioso difundido por uma seleção nacional

Dafferal, que comemora a conquista da Copa do Mundo de 1994, está com o coração partido por Roberto Baggio.
Taferral comemora sua vitória na Copa do Mundo de 1994 com Roberto Baggio

Dia de Derby em Belo Horizonte, mas não muda nada. João Leid acreditava ter uma missão comissionada por Jesus Cristo: espalhar a palavra de Deus entre outros jogadores de futebol.

Naquela tarde de dezembro de 1982, o goleiro do Atlético Mineiro abordou o adversário pouco antes do início do grande jogo, como havia feito em todas as partidas nos últimos três anos.

“Jesus te ama e eu tenho um presente para você”, disse ele, entregando ao guardião do Cruciro Carlos Gomez uma cópia da Bíblia.

Na época, Gomez achou tudo um pouco estranho em termos de circunstâncias. Ele admitiu que estava de alguma forma zangado quando recebeu o livro.

Mas esse sentimento inicial mudou mais tarde e ele realmente se juntou ao movimento religioso de Leid – os Atletas de Cristo. Ele estava longe de ser o único convertido.

A Associação de Atletas Cristãos Evangélicos conta com o Atletas de Cristo como um dos membros mais influentes do futebol brasileiro.

Os quatro em seu primeiro encontro. Ele crescerá para cerca de 7.000 em 60 países, incluindo grandes jogadores de futebol, como o vencedor da Bola de Ouro de 2007, Kaká, e o ex-zagueiro central do Bayern de Munique, Lucio.

“Tudo começou com o piloto de Fórmula 1 Alex Diaz Ribeiro, que competiu com os slogans ‘Jesus Salva’ em seus carros”, disse Lead, que jogou cinco vezes pelo Brasil, à BBC Sport.

“Decidi fazer o mesmo e joguei ‘Cristo Salva’ na minha camisa, mas depois a Federação Brasileira de Futebol proibiu e ameaçou tirar pontos do meu time, o Atlético.

“Foi quando comecei a dar Bíblias para outros jogadores. Mas aqueles eram tempos difíceis – havia muita discriminação contra os evangélicos. Até a seleção nacional não se sentia confortável. Não foi fácil para mim.”

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Em 1980, quando Leid cumpria sua “missão”, 88,9% da população brasileira era identificada como católica. Evangelho – um movimento dentro do cristianismo protestante – 6,6%.

Desde então, o equilíbrio mudou significativamente. Uma pesquisa do Datafolha apurou 50% e 31%, respectivamente, de 2021.

O Brasil é a maior nação católica do mundo, mas a previsão é que até 2032 as igrejas evangélicas atraiam mais fiéis ao país.

Quando Lead se aposentou do futebol em 1992, o movimento Atletas de Cristo estava crescendo de força em força.

A associação tinha seu próprio programa de TV na Argentina, apresentado pelo ex-meia brasileiro Paulo Silas e transmitido três vezes por semana. Eles tentaram em vão substituir Diego Maradona.

Uma de suas figuras mais importantes foi Jorgenho, um ponta-direita do Brasil que mais tarde doou Bíblias para seus adversários quando era capitão do Bayern Leverkusen, seu clube que deixou o Bayern de Munique em 1992.

Ele foi um dos seis jogadores evangélicos da seleção brasileira que derrotou a Itália na disputa de pênaltis dois anos depois, na Copa do Mundo de 1994. Cinco deles formaram um círculo no centro do campo e agradeceram a Deus após passarem por cima da barra de pênalti de Roberto Pagio. O sexto membro estava comemorando em sua caixa de seis jardas.

“Quando Baggio pegou na bola, não tive dúvidas de que venceríamos”, disse mais tarde o guarda-redes Dufferle. “Quem acredita em Deus nunca perderá alguém que acredita no Buda.”

Dufferlin, que agora é treinador de goleiros do Liverpool, é Quic Venceu o Tetra?’ (Quem ganhou o quarto título?).

Isso inclui o testemunho de jogadores que emprestam a Deus para a vitória, que foi criticado pelo renomado técnico Mario Jakalo. Foi um ponto de virada.

Lúcio ergue a taça da Copa das Confederações de 2009, vestindo a camiseta 'Eu amo Jesus' por cima do short
Lucio levanta a Copa das Confederações de 2009, vestindo a camiseta ‘Eu amo Jesus’ no short

O movimento Atletas de Cristo não está mais desfrutando da popularidade que já teve. Mas o evangelho continua a se espalhar rapidamente no Brasil e sua influência na seleção só aumentou desde 1994.

Lead enfrentou alguma oposição à sua fé dentro da organização nacional na década de 1980, e agora os evangélicos têm acesso especial aos acampamentos de grupo. Eles contam com doações de jogadores para viajar e operar serviços em salas separadas designadas pela Federação Brasileira de Futebol. Em alguns casos, os pastores também se tornaram parte da comitiva de veteranos.

Durante a Copa do Mundo de 2002 – que o Brasil também venceu – o zagueiro Lucio, Kaká e o ex-zagueiro do Barcelona Edmilson compareceram à oração.

“Você pode fazer o que quiser durante as férias”, disse Lucio à Associated Press Viajar para RevistaLink externo Em 2010. “Para mim, são momentos de esperança.

“Tentamos discutir as ideias positivas sobre como lidar com a tremenda pressão que tivemos que enfrentar nesses jogos.”

Depois de vencer a Copa das Confederações de 2009 na África do Sul, Lucio e outros jogadores vestiram camisas brancas com slogans devocionais como ‘Eu amo Deus’ e ‘Eu pertenço a Jesus’.

As autoridades disseram-lhes para removê-los. A Federação Dinamarquesa reclamou publicamente do filme e a Fifa enviou uma carta de advertência ao Brasil, cujas regras proíbem “declarações políticas, religiosas ou pessoais”.

No ano seguinte, vozes do Brasil começaram a questionar se o evangelho teve maior impacto na organização nacional.

Em meio à crescente pressão sobre Ronaldinho, que foi convocado para a Copa do Mundo de 2010 e depois jogou pelo Milan, a revista ESPN escreveu em sua capa: “Futebol não é suficiente para jogar no Celikavo. Também significa ‘loja fechada’).

Eventualmente, Ronaldinho foi deixado de fora da equipe e depois que o Brasil foi eliminado pela Holanda nas quartas de final, o analista de desempenho de longa data foi substituído por alguém com “mais experiência evangélica”.

Alguns anos depois, em 2015, o chefe da defesa foi demitido pela Federação Brasileira de Futebol por permitir um serviço evangelístico dentro do hotel da equipe sem o conhecimento do técnico Tunga.

“O céu foi celebrado durante nossa reunião hoje porque três vidas aceitaram Jesus Cristo e tomaram a decisão certa”, postou o pastor nas redes sociais. A dupla do Liverpool Alison Becker e Fabinho, o ex-zagueiro do Chelsea e Arsenal David Luiz e Lucas Maura, do Tottenham, estiveram presentes.

Paulsonaro posa com o troféu da Copa América após a vitória do Brasil em 2019
Bolzano posa com o troféu da Copa América após a vitória do Brasil sobre o Peru na final de 2019.

O crescimento em número e força de evangélicos no Brasil não se limita ao futebol. É também na política.

O presidente de extrema direita Jair Bolsanaro venceu a eleição de 2018 com o apoio de quase 70% da comunidade evangélica, incluindo estrelas do futebol como Neymar e Rivaldo.

Nascido em uma família católica e depois batizado novamente no rio Jordão por um evangelista, Bolzano prometeu que o “terrível evangelista” nomearia um juiz da Suprema Corte. E ele entregou.

Em dezembro de 2021, quando Andre Mentonka, advogado e evangelista, foi confirmado para o papel, o vídeo da primeira-dama Michael Bolzano gritando ‘Glória a Deus’ e falando em línguas se tornou viral.

Durante seu mandato como procurador-geral, Mentonka usou versículos da Bíblia para proteger a reabertura das igrejas durante a epidemia do Governo-19. Ele disse que sua nomeação foi “um pequeno passo para o homem, um grande passo para os evangelistas”.

A expansão evangélica na política começou em 1986, quando começaram a circular rumores de que o Brasil estava considerando tornar o catolicismo sua única religião oficial. Naquele ano, foram eleitos 32 deputados federais evangélicos. Existem agora 105 desses delegados e 15 senadores.

Não é raro encontrar alguns deles com serviços na Câmara dos Deputados. Quando a ex-presidente Dilma Rousseff foi destituída em 2016, 58 parlamentares dedicaram seus votos a Deus.

Os críticos vinculam o evangelho na política ao fortalecimento da agenda conservadora e ao aumento da tolerância, que não permite que outras crenças religiosas, especialmente as de ascendência africana, se expressem.

O índice de aprovação nacional de Paulsonaro caiu recentemente para 22%, com a próxima eleição presidencial marcada para 2 de outubro.

O ex-internacional brasileiro Walter Cossackrand, agora um comentarista, criticou o atacante do Paris Saint-Germain, dizendo que ele se tornou um “escravo” de Bolzano.

Então, quando o atacante do Bayer Leverkusen, Paulinho, marcou para o Brasil por 4 a 2 nas Olimpíadas do ano passado, sua comemoração foi ainda melhor.

Ao se posicionar contra a perseguição religiosa, o jovem de 21 anos fez o gesto de arqueiro em homenagem ao seu órix (deus espiritual) Oxosi na religião contemporânea.

O castiçal, uma mistura de crenças tradicionais iorubás, telefone e bandas que se originou em diferentes partes da África, há muito é praticado no Brasil, muitas vezes em segredo no passado. Mesmo agora, a religião está sendo atacada de tempos em tempos por evangélicos radicais que a veem como satânica.

Mas Paulinho parecia determinado a lembrar aos outros, quando voltasse para casa, que ainda havia espaço para todas as religiões no Brasil e na seleção.

Tadday Köhler

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