A tristeza ofuscou tudo

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Foto: Twitter @BotafogoOficial

O Botafogo empatou com a ponte Preta em seu último jogo como mandante no Brasileirão. O 1×1 no sábado retrasado, dia 26/11 foi o quinto resultado sem vitória do time de General Severiano na competição. Mas os lamentos dali decorrentes nem se comparariam aos que se seguiriam.

Com mais um empate, o Clube carioca completou cinco rodadas sem vencer. Pior que o placar, foi o futebol apresentado. Desorganização como há muito não se via. A despedida da Arena na Ilha do Governador trouxe aos Torcedores o desprazer de ver o adversário anotar tento de empate quando o dono da casa vencia por 1×0 e tinha 11 jogadores em campo, contra 10 da Macaca.

Quinta colocação perdida para pro Atlético Paranaense, vaga na Libertadores 2017 ameaçada e frustração para os Botafoguenses, que apesar de saberem que o time depende só de si, não confiam nos comandados de Jair Ventura (em decorrência da queda de rendimento recente), e passaram a fazer contas para entender que outros resultados poderiam garantir-lhes no certame continental.

Mas todo o incômodo de estar prestes a perder um credenciamento que já foi quase certo deixou de fazer sentido para qualquer Alvinegro após a madrugada que o Brasil nunca irá esquecer, muito menos o esporte e principalmente o futebol de nosso país. Daquele dia 29/11/2016 até sabe-se lá quando o luto humano (diferente do oficial/institucional) passar, só há espaço no para incredulidade, consternação e tristeza profunda por conta da tragédia que vitimou a delegação da Chapecoense que viajava a Medellín para disputar a final da Copa Sul-Americana contra o Atlético Nacional, e as equipes de imprensa que cobririam o evento. 71 mortos. 6 feridos. Famílias e amigos abalados, uma cidade emocionalmente devastada, 2 países feridos, e o mundo prestando condolências.

Fatalidade ou negligência? É algo que se investiga, com inegáveis indícios de que os responsáveis pelo vôo da companhia aérea LaMia no mínimo colocaram todos na aeronave em altíssimo, previsível e desnecessário risco. As autoridades darão o veredicto.

A dor da perda e o choque do inesperado foram dando lugar ao desejo de homenagear os que partiram de todas as formas, da mais singela à mais notável. E por falar em notável, é de se aplaudir por décadas o que fizeram os colombianos, sobretudo os dirigentes, atletas, e Torcedores do Campeão da Libertadores deste ano, o Atlético Nacional. Uma simples nota de pesar seria uma atitude que ninguém questionaria. Mas os “Verdolagas” foram além. Muito além. Pediram que o troféu em disputa fosse concedido ao Verdão do Oeste, e promoveram o Adeus mais comovente de que se tem notícias no esporte.

A Chapecoense e a população de Chapecó converteram suas dores em afeto aos mais próximos dos falecidos, o mundo se importou em homenagear aqueles que perderam a vida no acidente (ou incidente) aéreo. Quem não aguentasse se emocionar mais, não deveria ver TV, pois a cobertura do fato e de seus desdobramentos foi ampla, e diuturna.
Este espaço é feito para Torcedores do Botafogo, com aceitação a todos os que pretendem ler e comentar sobre futebol. Então, há questões particulares nesse fatídico evento que devem ser tratadas de Botafoguense para Botafoguense. Quantas vezes não xingamos Caio Junior naquela passagem dele pelo Alvinegro em 2011? É da cultura futebolística brasileira. Mas saber que o treinador (ainda jovem para sua profissão) morreu em uma viagem de trabalho, cumprindo um destacável papel de levar a simpática Chape a uma final continental, não traz um peso na consciência? E quantas vezes a emissora de TV de mais sucesso no Brasil não foi chamada por nós de “flapress”? Nesse pós-trauma ficamos sabendo que dois competentes jornalistas daquele mesmo grupo de mídia falecidos na Colômbia eram devotos fervorosos da Estrela Solitária. O Botafogo de Futebol e Regatas, aliás, foi fiel à sua grandeza ao abrir sua sede para seus velórios, e de um cinegrafista seu companheiro de equipe de transmissão, também vitimado no fato. No velório conjunto, vimos outros jornalistas daquela TV trajando o manto Alvinegro e dedicando palavras de reverência aos colegas/amigos que se foram. E por tudo o que se contou nestes dias, saltou aos olhos que a dupla de Guilhermes era muito Botafoguense. Tudo isso nos faz refletir e talvez repensar a acidez que nos envolve e nos faz bradar em cólera, quando achamos que estamos defendendo nosso Clube de coração.

Este texto não precisa ter imagens. Vimos muitas nas redes sociais e na imprensa durante estes sete longos e penosos dias de terça pra cá. Mas vamos ficar com uma só, que certamente tocou os corações Alvinegros. Muito mais que todas as palavras acima escritas. A imagem do Manequinho em frente à Sede de General Severiano vestindo com ineditismo outra camisa que não a do Glorioso. Ele viveu seu momento “Chapequinho”, em memória de todos os que tiveram suas vidas ceifadas com a queda da aeronave.

Foto: Twitter @BotafogoOficial
Foto: Twitter @BotafogoOficial

Em que condições psicológicas e emocionais os atletas disputarão os jogos da última rodada do Brasileirão, e a finalíssima da Copa do Brasil, não sabemos. Certo é que a tristeza ofuscou tudo.

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